Reportagem: Malena Stariolo
Sondas espaciais, telescópios gigantes, radares. A cada ano, a tecnologia para exploração espacial avança, trazendo consigo mapas cada vez mais detalhados do universo e a descoberta de novos exoplanetas – mundos que orbitam estrelas distantes, fora do conhecido Sistema Solar. Com tamanha imensidão sendo continuamente desvendada, podemos ter a falsa impressão de que a nossa vizinhança espacial já está totalmente mapeada e, até mesmo, reconfigurada após o rebaixamento de Plutão para planeta anão em 2006. No entanto, mesmo “em casa”, no nosso Sistema Solar, ainda existem mistérios que continuam a intrigar cientistas.

Um desses enigmas é a possível existência de um nono planeta, até hoje invisível aos telescópios. Cientistas começaram a suspeitar de sua existência após a descoberta de Netuno, em 1846, acreditando que deveria haver algum planeta capaz de influenciar as órbitas de Urano e Netuno. A formulação desta hipótese levou a uma corrida entre os astrônomos, que resultou na descoberta de Plutão, em 1930. Porém, o acúmulo de observações sobre Plutão revelou que não se poderia atribuir a ele os efeitos observados sobre Urano e Netuno. O resultado foi a retomada da busca pelo nono planeta. Hoje, acredita-se que ele deva estar situado para além do Cinturão de Kuiper — um vasto disco de objetos espaciais, como asteroides, cometas e planetas anões — em uma região mais externa, fria e escura do Sistema Solar, seguindo uma órbita que talvez esteja 600 vezes mais distante do Sol do que a Terra.
O fato de estar situado tão distante do Sol e da Terra torna desafiadora a tarefa de registrar sua existência. Por isso, para aumentar as chances de uma observação de algum tipo, astrônomos vem envidando esforços para compreender melhor quais características o hipotético nono planeta poderia apresentar, incluindo aí o seu tamanho, a trajetória de sua órbita e o tempo necessário para percorrê-la e o tipo de influência gravitacional que exerceria sobre outros corpos menores. Todos esses detalhes, são pistas que permitem aos astrônomos determinar, por exemplo, em que região do espaço o suposto planeta pode estar em dado momento, proporcionando uma orientação para que os astrônomos possam apontar para lá seus telescópios.
Somando-se a este esforço, pesquisadores da Unesp, em colaboração com cientistas dos Estados Unidos e da França, estudaram a influência do eventual Planeta-9 na formação e na trajetória de cometas que já foram observados no Sistema Solar. No estudo, publicado na revista científica Icarus, o grupo relata o resultado de uma simulação de um modelo do sistema Solar contendo um nono planeta. O experimento permitiu monitorar a evolução da nossa vizinhança espacial ao longo de um período equivalente a bilhões de anos. Os resultados mostraram que a existência do planeta 9 afetaria a formação de duas áreas do sistema solar que abrigam reservatórios de cometas: a área expandida do cinturão de Kuiper e a Nuvem de Oort.
A hipótese do Planeta 9
Embora as predições teóricas sobre a sua existência remontem ao século 19, as buscas pelo planeta ganharam força há pouco mais de uma década. Graças à evolução das técnicas observacionais, entre 2004 e 2013 foram descobertos seis objetos transnetunianos, que se classificaram como os mais distantes já registrados no Sistema Solar. A análise das órbitas destes corpos identificou um alinhamento singular. Todas parecem apontar para uma mesma direção, como se sentissem os efeitos gravitacionais de algum objeto.
Por conta das distâncias, sabia-se que Netuno não teria força suficiente para exercer essa influência gravitacional, o que corroborou com a ideia de um planeta orbitando aquela região. Essa hipótese foi divulgada pela primeira vez em 2016, pelos astrônomos Konstantin Batygin e Michael E. Brown e, desde então, é considerada a mais forte evidência quanto a sua possível existência. “A ideia é que esse planeta forneceria uma força gravitacional forte o suficiente para alinhar esses objetos”, diz Rafael Ribeiro de Sousa, pesquisador da Faculdade de Engenharia e Ciências da Unesp, campus de Guaratinguetá. “Esse tipo de fenômeno ajudou a descobrir outros planetas do Sistema Solar, como Netuno e Urano, porque a influência gravitacional entre planetas, cometas e asteroides é algo que conhecemos bem dentro da física. Por isso, conseguimos fazer previsões bastante refinadas.”
Ainda que a constatação do alinhamento das órbitas dos seis objetos transnetunianos ofereça um indício importante, não é suficiente para que um eventual nono planeta seja encontrado. Devido ao seu imenso distanciamento do Sol, a luz que chega à sua superfície e é refletida por ela possui pouca intensidade, e não consegue chamar a atenção dos observadores terrestres. Além disso, sua órbita é extremamente longa, demandando 10 mil anos para que se complete uma volta em torno do Sol. Tudo somado, o resultado é que, a menos que sejam encontradas novas quanto à região em que ele possa ser encontrado num dado momento, os pesquisadores ficam limitados a buscar o objeto “às cegas”, sem uma indicação precisa para onde apontar os telescópios.
“O que os seis objetos transnetunianos indicam é que é preciso descobrir mais objetos assim, para conseguir uma precisão maior da órbita e do local do Planeta 9”, explica Sousa.
Fonte: Assessoria de Comunicação e Imprensa da UNESP